quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Da Série: Rapidinhas da Psicótica


Então ele me perguntou se a gente iria se ver.
Creio que nenhuma resposta seria melhor do que a verdade: "Olha, acabei de comprar um vestido, um conjunto de lingerie e preciso de alguma atividade física que me faça queimar as calorias dos dois brigadeiros que eu comi no intervalo entre uma compra e outra. Então... espero que sim(!!!)".
Naturalmente, respondi apenas um contido e casual "sim, sim", enquanto (re)avaliava a real necessidade de um retoque na depilação.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Psicose em Destak


Queria agradecer à leitora Ana Amélia Santos, que indicou o "Adorável Psicose" para o Jornal Destak. Em retribuição, irei persegui-la durante sete dias e escrever um texto explanando todos os aspectos psicóticos da sua vida.

Sacanagem.

Mas eu pago um chope.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Velha Demais


Tirando minha tia avó e alguns pedreiros, ninguém nunca me chamou de "meu amor". E tenho certeza de que nunca disse o mesmo para alguém que não estivesse furando o meu lugar na fila: "Meu amor, cai fora daí". Ou alguém que não fosse uma bicha cabeleireira: "Corte joãozinho? Mas nem morta, meu amor". Ou se não fosse para argumentar com uma mulher muito chata: "Meu amor, olha só, pra começar você é gorda".
Vou fazer vinte e cinco anos e nunca tive um relacionamento de verdade. Talvez eu seja nova demais para me preocupar com isso. Em compensação, já tenho idade suficiente para querer ser velha em alguns momentos.
Como quando alguém me chama para ir ver Los Hermanos. "Já tô velha demais para essas coisas", eu respondo. Não que antes eu tivesse alguma vontade de ir, mas agora eu adquiri o passe. Finalmente, tenho o direito de dizer "não".
Boate muito cheia, sem lugar para as pessoas se mexerem: "Tô velha para essas coisas, gente". Aniversário da pessoa mais insuportável do trabalho na segunda-feira à noite: "Desculpa, mas é que eu realmente tô velha demais para essas coisas".
Acho que essa é uma das grandes vantagens de ficar velho. Quanto mais o tempo passa, menos você se sente compelido a fazer coisas que não tem vontade de fazer. E, de quebra, ainda ganha a desculpa perfeita. "Estou velho demais" é um argumento inquestionável. A pessoa não vai discutir com alguém que está velho demais. Pelo contrário, isso é quase como um "respeite meus cabelos brancos". Só que, nesse caso, tá mais para "respeite todos aqueles anos em que eu saía peregrinando de bar em bar, depois ia a uma boate, dançava a madrugada toda e só voltava pra casa depois das seis da manhã".
O "já tô velha demais pra isso" serve para todo tipo de situação. Inclusive para a vida afetiva. Porque chega uma hora em que você simplesmente não tem mais paciência para os joguinhos de outrora. Existe um momento, muito nítido, em que você se dá conta de que está mesmo velha demais para não fazer o que tem vontade de fazer. Ou vice-versa.
Vou fazer vinte e cinco anos e nunca tive um relacionamento de verdade. Tive desencontros, equívocos, mal-entendidos. Relacionamentos platônicos, impossíveis, imaginários. Todos eles. Mas reais e adultos, não faço ideia de como sejam.
Não sei por que isso acontece. Talvez porque eu sempre foque as pessoas erradas. Ou talvez porque eu morra de medo de precisar de alguém. De ficar vulnerável e quebrar a cara.
Seja como for, de uma coisa eu tenho certeza. Apesar de ser muito nova para me preocupar com isso, eu já estou velha demais para não admitir que seria legal tentar.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Resoluções de Dia de Finados


- Correr na praia
- Andar na praia
- Ir à praia
- Comprar biquíni
- Voltar a fazer terapia
- Comprar sapatos
- Parar de sair com homens errados
- Parar de sair com homens
- Virar lésbica
- Virar matadora de vampiras lésbicas
- Fazer dieta
- Comprar chocolate e vinho
- Correr na praia

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Como se tornar uma psicótica obsessivo-compulsiva


1 - Pense no cara com quem você está saindo;
2 - Considere a hipótese desse cara estar saindo com outra;
3 - Presuma que esse cara está saindo com outra;
4 - Tenha certeza absoluta de que esse cara está saindo com outra;
5 - Fique absurdamente revoltada com o fato desse cara estar saindo com outra e ligue para ele, alegando que já sabe de tudo e não quer mais saber dessa palhaçada.

(Tempo de duração do processo: 5 a 10 minutos)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

"One More Time With Feeling"


Se os corações fossem pequenas casas, a cada pessoa seria destinado um cômodo.
A grande maioria jamais passaria da cozinha. Ficaria por ali, perambulando, à espera de um convite para a disputada sala de estar, onde tudo supostamente estaria acontecendo.
Enquanto isso, algumas pessoas seriam encaminhadas à área de serviço, onde tentariam colocar as coisas em ordem. Iriam lavar, passar, limpar. Tudo para agradar e, quem sabe, ser recompensadas. Mas, mesmo que o dono da casa as tratasse com carinho, no fundo, elas saberiam o seu lugar.
Os que forçassem a entrada seriam mandados diretamente para o banheiro, onde ficariam presos até que o proprietário decidisse dar ou não a descarga final.
Aos poucos sortudos, caberiam os quartos. No plural, porque o dono da casa saberia que, ao longo da vida, iria receber mais de um hóspede importante.
Alguns seriam jogados no lixo, é triste admitir. E depois seriam levados para fora de casa, em grandes sacos pretos. Outros até trocariam de cômodo. Dentre os festeiros da sala, um deles poderia passar a noite no quarto. Talvez mais de uma. E, talvez, depois de várias noites, esse mesmo indivíduo poderia acabar indo embora pela descarga.
Não existem regras definidas para o funcionamento dessa pequena casa. Uma mesma pessoa pode ocupar diferentes cômodos em diferentes corações. Você pode estar fadado à área de serviço de um, mas também pode ocupar a suíte master de outro.
Todos nós, se já não estivemos, ainda estaremos em cada um desses lugares e experimentaremos a frustração de não nos sentirmos devidamente alocados. Mas, com sorte, também saberemos como é bom ser escolhido para um cantinho quente e protegido da casa.
De todo jeito, a maneira mais surpreendente de se conquistar um coração é quando você entra pela área de serviço, de mansinho. Sem muito alarde, você chega até a festa da sala e, pouco a pouco, acaba se destacando entre os demais convidados. Quando menos espera, sua escova de dente já está no banheiro. Abrir a porta do quarto agora é uma mera formalidade. Porque, a essa altura, a casa inteira também é sua.

Texto inspirado em conversa com os amigos psicóticos Diogo e Carol, e catalisado por uma ligação telefônica.

video
(Eet - Regina Spektor)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Da Série: Piores Encontros do Universo


1 - O Bundudo

Não via o sujeito há meses. Talvez mais de um ano. Lembrava dele como o cara bonitinho, inteligente e um pouquinho arrogante, mas não muito. Só o suficiente para me provocar. Já havia saído com ele em outras ocasiões mas, por alguma razão, paramos de nos ver. De qualquer forma, eu estava bastante ansiosa.
Quando cheguei ao bar, ele já estava sentado, me esperando. Levantou-se para me cumprimentar, mas eu estava tão daquele meu jeito tenso-nervoso-histriônico que nem tive a oportunidade de dar uma checada no rapaz. Apenas me sentei diante dele e desatei a falar.
Já estava me acalmando e quase não sentia mais meu rosto queimar, provavelmente por estar super vermelho, quando ele se levantou novamente, dessa vez para ir ao banheiro. Foi aí que eu vi. Aquela coisa enorme, desproporcional, monstruosa, olhando pra mim, tentando me intimidar. A bunda assassina.
- Já volto - ele disse. Mas por um segundo achei que tinha sido a bunda.
- Tá bom - respondi, com o sorriso mais difícil que já me forcei a dar.
Estava petrificada. Que caralhos? Ele não era gordo, estava exatamente como eu me lembrava. Gatinho! De onde tinha vindo aquele anexo? Aquele irmão siamês em forma de nádegas?
Peguei meu celular no instante em que o vi fechar a porta do toalete masculino.
- Que caralhos? - reclamei com uma amiga - A única vantagem é que se ele me der um fora, a imagem dele indo embora vai me lembrar do lado bom de estar terminando.
Ao vê-lo voltando para a mesa, tentei disfarçar:
- Não, eu não estou interessada em fazer um seguro de vida. Eu sinceramente acredito que sou imortal - e desliguei. - Telemarketing - disse, justificando a ligação.
- No sábado à noite?
- Pois é. Um absurdo.
- Eles são uns bundões mesmo.
Segurar o riso agora foi tão dificil quanto forçar aquele sorriso alguns parágrafos acima.
- É, eles são...
Silêncio.
- Olha, Natalia, não precisa disfarçar. Eu sei o que você tá pensando.
- Sabe?
- Sei. Você provavelmente está se perguntando o que caralhos aconteceu com a minha...
Ai meu deus.
E, do nada, eu juro pra vocês que todo mundo no bar começou a bater nas mesas com os punhos fechados gritando: Bunda! Bunda! Bunda!
- ...namorada - ele completou, dando fim a minha breve alucinação.
- Oi? - perguntei, confusa.
- Você sabe, eu comecei a namorar no ano passado, por isso eu e você paramos de sair.
- Ahh. Claro. Era isso que eu estava me perguntando - disse, sem conseguir olhar nos olhos dele.
- A gente terminou há duas semanas. Não tava mais dando certo. Eu mudei muito. De uns tempos pra cá, eu tenho sentido essa coisa crescendo dentro de mim, sabe, uma coisa pesada, uma...
De novo não...
- Bunda! Bunda! Bunda! - gritavam os outros clientes, batendo na mesa em uníssono, enquanto eu respirava fundo, tentando me concentrar na conversa.
- ... sensação de que o tempo está passando e eu estou deixando de viver as coisas, sabe?
- Sei, super chato quando essas coisas acontecem. Escuta, você quer pedir alguma coisa? Uísque, tequila? Absinto?
- Nossa, alguém tá animada hoje, hein? - ele comentou, fazendo um gesto para o garçom se aproximar.
- Sim, qual é o pedido?
- Por mim, eu dava uma beliscada em alguma coisa - ele disse. - O que você recomenda?
- Que tal uma bunda, senhor? - o garçom sugeriu.
- Como é que é? - questionei, um pouco ofendida.
- Bunda - respondeu o bundudo, me mostrando o cardápio.
Minha vista embaçou e comecei a sentir uma tontura. No cardápio inteiro estava escrito Bunda, Bunda, Bunda. Olhei para o garçom e ele perguntou, em tom normal:
- Bunda bunda bunda bunda?
Olhei para o bonitinho bundudo e ele dizia, tranquilamente:
- Bunda, bunda, bunda...
De repente, todos a minha volta estavam falando em bundês. Conversavam entre si, riam, trocavam declarações. Não importava o assunto, a única palavra que eles pronunciavam era bunda.
Pus as mãos sobre a cabeça e respirei fundo novamente, esperando que aquilo passasse. Mas não adiantou. Impaciente, tentei gritar "basta", mas o que saiu foi:
- Bunda!
Em pânico, levantei da cadeira e continuei a falar, na esperança de reassumir o controle da situação:
- Bunda bunda bunda bunda bunda bunda...
Quando me dei conta, todos no bar estavam em silêncio, olhando para mim. Imediatamente parei o que estava fazendo, olhei para o meu decote e arrisquei:
- Peito?
Por alguma razão, depois desse encontro, o bundudo nunca mais me ligou.